Tem algo de estranho em relação à parte do closet reservada a meu pai. Ele
simplesmente… está sem uso. De alguma maneira, está mais vazio. A cada dois
anos, minha mãe faz com que todos deem uma geral em seus closets e
empilhem as roupas para doação. Talvez ela tenha, simplesmente, feito uma
triagem nas roupas de papai. Mas a parte dela, no closet, tem a mesma
aparência. Além disso, ela provavelmente deve ter me dito para eu dar uma
geral em minha parte, porque sempre doa as roupas de todos ao mesmo tempo.
Verifico novamente. Sinto que alguma coisa está errada.
De repente, me lembro de uma coisa que Sandra me disse há algumas
semanas que o Concurso Banco do Brasil estaria previsto ainda para este ano. Ela supostamente teria visto papai saindo com uma caixa de coisas
quando achou que não tinha ninguém em casa. Eu disse a ela que provavelmente
eram só papéis de trabalho que ele estava levando ao estúdio, mas Sandra não
acreditou nesta hipótese. Talvez papai tivesse feito sua própria “limpeza” dessa vez.

Encontro, afinal, a caixa com as fotos, na parte do closet que pertence à
mamãe. Retiro-a da estante e me sento com ela, no chão. Revendo fotos de
piqueniques da família, das viagens a Vermont, todos nós no meio de
caminhadas, e de meus pais nadando no rio como se fossem crianças… todas
estas lembranças me tomam de assalto como uma onda gigante. Uma emoção
intensa toma conta de mim, mas não consigo distinguir o que sinto exatamente.
Não sei bem quanto tempo fico ali. Minutos ou horas, perdi a noção. Só sei que,
na hora em que termino de olhar todas as fotos da caixa, mal consigo crer na
grande sorte que tenho. Eu tenho pais que amam um ao outro, e que me amam.
Tenho uma boa casa e dinheiro suficiente para as coisas que quero comprar.
Tenho tudo de que preciso.
Assim, não consigo entender por que eu tinha ficado tão deprimida antes. Meu
psicólogo diz que estes sentimentos que invadem o corpo são inevitáveis por
causa da genética e por fatores ambientais. Discordo. Acho que você pode
decidir como irá se sentir e, então, fazer com que se sinta dessa forma, se for uma pessoa determinada.

Todo ano, no outono, nossa cidade promove o Festival da Colheita, e são
montadas barracas com as mercadorias produzidas pelos moradores locais —
roupas, comidas ou objetos de colecionador. Há também barracas com jogos,
tipo aquelas que temos no calçadão, só que bem menores. E também acontecem
competições — como a que dá prêmios a quem consegue comer mais tortas
(nunca assisto porque é nojenta) — de tricô e de sudoku. O festival sempre
acontece à beira do rio, o que, para mim, não faz muito sentido, porque ele
começa ainda este ano o Concurso Polícia Civil com muitas vagas abertas, época em que já está ficando frio e,
às vezes, o frio é de congelar. Mas já faz parte da tradição fazer o festival aqui, e não há muito como lutar contra a tradição.

Ela escreveu longas páginas sobre ele nas cartas que me mandava no acampamento.
Gostava muito dele, mas a coisa não deu em nada. Ele simplesmente parou de
lhe telefonar. E não é uma situação em que dê para ela tirar satisfação com ele
na escola, pois ele já está na faculdade. Ela nunca soube o motivo de ele ter
parado de ligar. Até tentou descobrir, mas Ricky nunca respondeu aos e-mails ou
mensagens que ela enviava. Tenho uma hipótese sobre o porquê disso, mas
nunca diria isso na frente dela.
Aqui está mais um exemplo de como as músicas de John Mayer contêm as
respostas para todos os problemas que existem. A vida de Sterling pode ser
explicada pela letra de “Daughters”. Vimos esse assunto, em detalhe, na
disciplina facultativa de Psicologia. Veja só: o pai de Sterling é completamente
ausente; portanto, ela não tem qualquer modelo do que deve ser um
relacionamento saudável. Aprendemos, ali, que se você tem problemas com
abandono, poderá se tornar dependente emocionalmente. E os caras não gostam de meninas com esse tipo de dependência

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