Quando, entretanto, miramos a realidade dos governos, tanto locais
como nacionais, espalhados pelo mundo, e quando nos deparamos com a forma
de gastar dos nossos governos no Brasil, nas três esferas em que se compõem –
União federal, estados federados e municípios –, percebemos a diferença
aterradora entre o conceito geral, relativamente puro, de governos
considerados entes coletivos realizadores de esperanças e, do outro lado, os
governos da vida real, que passam a impressão de estarem mais prontos a
realizar expectativas de grupos que o apoiam na incumbência de governar.

A representação política nas sociedades largas e complexas passou a atrair os
profissionais dessa função, que chamamos de “políticos”. A possibilidade de
sobrevida do político como tal, sua perpetuação nessa atividade de
intermediação de desejos e esperanças dos cidadãos, depende de uma inequação
que, na matemática, corresponde a algo que nunca se equilibra, entre um lado e outro da expressão algébrica para calculo do novo salario 2020 anunciado pelo governo que acompanha a inflação.

Na inequação política, no cotejo entre o discurso
das promessas políticas e o conjunto das realizações possíveis, há que restar um
saldo positivo entre benefícios e sacrifícios, conforme percebidos pelos
cidadãos eleitores; a esperança deve superar a desilusão; a prestação do
serviço público tem que parecer mais valiosa do que o imposto que a financia.
Esta é a inequação positiva da estabilidade política na polis e que mantém o
governante no poder.

É a percepção de um saldo positivo para o cidadão o
elemento que produz a quota de esperança líquida da sociedade, já descontados
os tributos que fazem parte do custo social da vida na polis.

O ponto culminante do ilusionismo político é o governo grátis. O mito
do governante que seja capaz de produzir benefícios coletivos sem qualquer
custo para a sociedade é a forma mais sofisticada de se criar a ilusão coletiva
da gratuidade a respeito de tudo que seja ou provenha do setor público. O mito
do governo sem custo para quem quer que seja é, enfim, o governo grátis para
você! O governo grátis fala ao ouvido de cada cidadão, tem interlocução
pessoal com o representado e, finalmente, mora no coração de cada um deles.

O governo grátis provoca uma sintonia absoluta entre os cidadãos e pode, com
isso, invocar um uníssono, que é a reação dos indivíduos como massa.
Obviamente, o contraditório do mito do governo grátis é a desilusão total que
finalmente haverá de provocar, a perda da fé na possibilidade de o cidadão
obter algum benefício do governo superior aos custos que ele está suportando,
em geral uma dolorosa percepção que a sociedade tenta adiar, agravando o problema.

O governo transformou o atendimento do INSS muita coisa podendo ser feita digitalmente, agora é possível Consulta Benefício INSS pelo CPF pela internet, possibilitando maior rapidez e menos filas para ser atendido.

O mito do governo grátis, aquele que distribui vantagens a todos sem
nenhum custo para a sociedade, está na raiz do declínio da produtividade e na
atual estagnação do processo produtivo brasileiro. Mas não é privilégio nosso.

Ao longo do texto, percorreremos dramáticas experiências de outras nações,
entre nossos vizinhos e alhures, cuja familiaridade com a promessa populista do
governo grátis também faz parte arraigada da cultura social, revelando uma
esperança quase inabalável na possibilidade metafísica de um líder carismático,
movido pela generosidade e absoluta sintonia com “seu povo”, ter e exercer o
dom privilegiado de conceder, livre de efeitos negativos à sociedade, vantagens
à maioria dos cidadãos sem prejuízo ou sacrifício para qualquer outra parte.

No governo grátis, a despesa pública sempre haverá de crescer mais
rápido do que os recursos da economia privada que a financia. A velocidade do
crescimento da despesa pública é, portanto, um importante teste prático da
existência de um regime de governo grátis. Mas a expansão, sobretudo se
galopante, da despesa pública exigirá um esforço de financiamento pelo
governante e seus prepostos, que tentarão – e, por algum tempo, se forem ágeis
e cativantes, conseguirão – criar um mecanismo de extração de recursos, via
emissões de papel-moeda ou assunção de dívidas, e via tributos, confiscos e
desapropriações, para gerar aportes daqueles cidadãos entre os mais
produtivos e empreendedores, por serem os mais capazes de suportar a
arrecadação extratora. A concepção do regime de governo grátis é muito
simples: tirar de quem pode e repassar (uma parte, claro) para quem precisa, ou diz precisar.

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