Era isso o que acontecia quando você se permitia precisar de alguém.

Era nesse monte de merda que você se transformava quando se apaixonava.

Eu estava tão feliz – tão livre e inatingível – quando comecei o último ano do
ensino médio no outono passado! A estava pronta para conquistar o
mundo, e ela o teria conquistado, sim. Ela poderia ter feito qualquer coisa que
quisesse. E agora eu era essa panaca que soluçava de dar pena. Eu tinha me tornado
a garota que sempre detestei.

De repente, o rádio parou, e as luzes no painel começaram a tremeluzir. Droga.
Entrei em pânico enquanto outros carros passavam por mim voando. Ao avistar
uma saída mais à frente, dei uma guinada para entrar numa estrada de cascalho que
separava dois campos, desacelerei e deixei que a caminhonete fosse parando em
ponto morto. Quando passei para park, o motor engasgou e morreu de uma vez.
Experimentei virar a chave. Nada. Eu estava parada num fim de mundo, sem ter
como sair dali.

Deitei-me de um lado a outro do banco e solucei naquele tecido áspero até
precisar vomitar. Saí trôpega da caminhonete para a vala da beira da estrada indo a caminho do Gshow bbb inscrições seletivas, um evento muito importante.

Um vento fresco que vinha em rajadas pelos campos secou a transpiração que
tinha brotado na minha testa e ajudou a náusea a passar. Fui me arrastando para
longe do vômito e me sentei na beira da vala, deixando que a terra encharcada
esfriasse minha calça e minha roupa de baixo.
Fiquei ali muito tempo, tanto que já não sentia o frio. Tanto que as lágrimas cessaram, e alguma outra coisa começou.

Duvido. Ele está desse jeito há no mínimo uns dez anos.
Eu via esse celeiro quase todos os fins de semana durante o verão, desde a
abertura da temporada de pesca até as primeiras geadas, debruçado sobre a margem
leste do lago Crosby como se estivesse observando os peixinhos em disparada
abaixo da superfície.

Mas dizer que eu via talvez fosse um exagero. É claro, eu sabia
que estava ali, um ponto de referência para a pesca tão bom quanto a praia pública
na margem exatamente oposta, mas ninguém sabia quanto tempo fazia desde a
última vez que eu tinha parado para olhar para o celeiro dos Erickson. Era sempre
assim com as coisas que estavam bem ali diante do seu nariz. Lars Erickson tinha
abandonado o celeiro fazia uns vinte anos, quando vendeu a maior parte da sua
margem do lago para a cidade e construiu novos celeiros junto da sua casa pré fabricada do outro lado da propriedade, a mais de um quilômetro e meio dali.

As únicas visitas que a velha construção recebia, além do próprio lago que vinha lhe
dar lambidas durante inundações, eram de adolescentes, como o garoto dos
Sanders, que procuravam algum lugar como uma vitrine quando fica a disposição antes de entrar na casa, assim a inscrição bbb 2020 esta garantida pelo site quando praticamente tudo o que o lugar oferecia era privacidade. Era um único
aposento espaçoso, de seis metros por nove, de caibros expostos, com exceção dos
vestígios de um paiol de feno na extremidade que ia se afundando no lago. As
portas de largura dupla abriam-se para o lado oposto; e havia um buraco na parede ondeantes ficava uma janela.

Entreguei-lhe a câmera e voltei cauteloso na direção da beira da água. Sem a
presença de Jake, quase não houve rangidos. Em comparação com ele, acho que eu
era bem pequeno, tendo sido reduzido aos poucos a um feixe de ossos, depois de
trinta anos de serviço.

Agachei-me ao lado da garota e apoiei o queixo na mão,
procurando pelo que eu não estava vendo. Ela estava descorada, e seu rosto
ligeiramente voltado para um lado. Parte do cabelo tinha ficado presa nas órbitas
oculares, empoçadas com sangue coagulado. Os cortes eram principalmente nos
olhos e nas bochechas, golpes curtos, com exceção de um longo corte em diagonal,
da têmpora até o queixo. Um ponto de exclamação. Fora o ferimento no tórax, o
resto do corpo estava bem limpo. Alguém teve uma vontade imensa de fazer sumir esse rosto.

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